Mulher todos os dias



Uma revolução que começou há exatamente cem anos, está longe de acabar e segue com força máxima neste século. O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, tem origem nas manifestações das russas por melhores condições de vida, trabalho e contra a entrada do país czarista na Primeira Guerra Mundial, em 1914. Hoje, no Brasil, elas já são maioria nas escolas, universidades, nos concursos públicos e em boa parte dos cargos de gestão nas empresas privadas e governamentais.

Tanto que elas já são atualmente predominantes entre os desempregados na região metropolitana de São Paulo, a maior do Brasil. Entre 1985 e 2013, passaram de 48,8% do total para 52,7%, segundo um estudo realizado pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade). Parte desse aumento, de acordo com o levantamento, está ligado à maior presença das mulheres no mundo do trabalho.

No período de quase 30 anos analisado, a taxa de participação do grupo subiu de 44,7% para 55,1%, enquanto o percentual masculino de trabalhadores em idade ativa desempregado ou à procura de uma vaga diminuiu de 77,1% para 70,6%. No campo, a situação é muito semelhante. São perto de quatro milhões de mulheres atuando diretamente no Agronegócio, 52,3% da população economicamente ativa.

Uma delas, pela primeira vez na história política brasileira, comanda o mais alto posto da administração pública, a Ministra da Agricultura, Pecuária e Meio Ambiente (MAPA), Kátia Abreu. E milhares de outras querem entrar neste clube, caçando espaço no mercado de trabalho. Basta mirar o assunto qualificação. Em 2013, por exemplo, de 34,4 mil pessoas capacitadas pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) em Mato Grosso do Sul, 16,6 mil eram do mundo feminino, quase a metade.

A presença das mulheres no Agronegócio é cada vez maior e isso se reflete também nos cargos de gestão e administração das propriedades. Foi o que revelou a 6ª edição da Pesquisa Comportamental e Hábitos de Mídia do Produtor Rural Brasileiro, realizada pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMR&A). A Pesquisa é um mapeamento do setor que busca identificar o perfil e os hábitos do empreendedor da produção agrícola e animal, saber como ele se atualiza, quem está do outro lado da porteira.

De acordo com o estudo, a participação das mulheres no Agronegócio hoje representa 10% do segmento. Ainda segundo os dados, nos anos de 1991/1992, o número de mulheres que coordenavam suas propriedades rurais era de apenas 1%. Em 2003/2004, esse número passou para 3%. Já nos anos de 2009/2010 esse número deu um salto, chegando a 7%. E na recente pesquisa, esse percentual chegou a 10%.

Segundo a vice-diretora da Escola de Agronomia da Universiade de São Paulo (Esalq/USP), Marisa d’Arce, a presença feminina na Universidade cresce sem parar e já atinge, em média, 50% nos cursos de graduação, especialmente nas áreas de engenharia agrônoma. “As mulheres têm conquistado, cada vez mais, a participação em todos os campos profissionais. No Agronegócio não poderia ser diferente. Elas, rapidamente, vêm assumindo posições de destaque. Com isso tem oportunidade de se firmarem como profissionais”, analisa.

No mundo inteiro não é diferente. Apesar do planeta ainda  ter os homens dominando, cresceu o número de mulheres na atividade. Elas representam hoje 43% dos 1,3 bilhão de pequenos agricultores do mundo, pelos dados da CSW (Comissão sobre a Situação da Mulher), da Organização das Nações Unidas (ONU).

O Brasil já tem hoje no setor rural uma riqueza que é responsável por 25% do Produto Interno Bruto (PIB) e quase um terço da balança comercial, com US$ 100 bilhões de faturamento. Um resultado possível graças a muita gente talentosa, competente e trabalhadora espalhada pelo país inteiro. A Revista Beefworld escolheu algumas destas profissionais para relembrar o 8 de março de 2015. Elas falam sobre a rotina de trabalho e, principalmente, o que mais importa no momento de mostrar que são tão produtivas e eficientes como os homens. Acompanhe:

Maria Eugênia Campacci Rocha, JBS

Head de Marketing da JBS, está na empresa há quatro anos. Graduada em Comunicação Social com MBA em Marketing, já passou pela Cargill, Marfrig, Bunge e Editora Abril.

“No meu ponto de vista, a mulher que tem sucesso no Agronegócio precisa de quatro características básicas. Entender profundamente do mercado em que atua. Saber colocar suas opiniões de forma clara e coerente. Ser agregadora para o time que normalmente é repleto de homens, e o jeito feminino contribui para ser o elo entre todos. Por último, ter resiliência para as decisões tomadas, pois, o mercado do agro é muito dinâmico.”

Rosalu Fladt Queiroz, Fazenda Jaguaretê Simental

Paulista, casada, dois filhos, graduada em Administração de Empresas e especializada em Hotelaria. Já presidiu o Núcleo Feminino do Agronegócio, ligado à Sociedade Rural Brasileira, integra à diretoria da Liga Solidária (entidade de educação e cidadania que atende mais de dez mil pessoas carentes) e ainda divide com o marido a lida na Fazenda Jaguaretê, em Eldorado do Sul (RS), trabalhando com gado Simental, melhoramento genético do rebanho gaúcho e o Programa de Qualidade Carne Macia Jaguaretê.

“Não foi nada fácil atuar neste mundo. Ser pecuarista é viver muito sozinho e a mulher é gregária, faz perguntas, tem um comportamento mais coletivo. Sou filha de pai pecuarista, entrei no segmento em 1998 e sofri para conseguir me impor diante dos funcionários da propriedade. Quando substitui meu irmão na direção da fazenda, não era respeitada pelo administrador. Apontava erros, repassava as regras, chamava a atenção, mas ele só atendia depois de consultar meu irmão. O jeito foi substituí-lo. Assim, o novo colaborador já chegou sabendo que havia diálogo, mas também era claro quem dava as ordens.”

Ligia Pimentel, AgriFatto

Médica Veterinária, pecuarista e consultora de mercado. Nasceu em Bebedouro (SP), numa família de pecuaristas. Fundadora da AgriFatto.

“O grande mérito da mulher de sucesso no mundo do Agro é conseguir vencer as barreiras invisíveis que colocaram diante de nós. A força física não é igual à dos homens e temos diferenças óbvias, mas as competências intelectuais são as mesmas. Tenho uma forte impressão pessoal de que quando alguém diz que você não pode, a dificuldade para alcançar o objetivo dobra, especialmente nas primeiras vezes em que você encara um desafio novo. É preciso coragem, persistência e paciência para vencer essa insegurança. Entretanto, a dificuldade se torna determinante apenas se aceitarmos que alcançar o sucesso é mais difícil, por algum motivo que desconheço, para as mulheres. O problema, portanto, é conceitual e o mérito está na coragem em tentar e na persistência quando não der certo na primeira tentativa. O resto é resultado desse esforço pessoal.”

Teresa Cristina Vendramini, Pecuarista e Presidente do Núcleo Feminino do Agronegócio

Socióloga, administra três propriedades em São Paulo e Mato Grosso do Sul, onde trabalha com gado Tabapuã e Angus. Preside o Núcleo Feminino do Agronegócio.

"Acredito que a mulher busca muita informação e pergunta sempre o que não sabe. Não se sente constrangida em perguntar. Tem uma preocupação latente com a gestão das fazendas e os índices produtivos. Por ter mais facilidades em ouvir, na maioria das vezes, consegue contornar os problemas e incentivar seus colaboradores dentro e fora da porteira. Nos dias atuais, temos cada vez mais um olhar atento para a sustentabilidade dos nossos negócios. Queremos sim produzir mais em menos espaço. E pensamos no Bem-Estar Animal como premissa básica.”

Carla Tuccilio, Diretora da Verum Eventos e Organizadora do Circuito Expocorte

Carla Tuccilio ingressou no Agronegócio como Gerente de Eventos no Agrocentro Empreendimentos e Participações, organizando as maiores feiras indoor do Brasil de agropecuária, como FEICORTE, FEILEITE e FEINCO. Foi idealizadora do Circuito Feicorte e atualmente está à frente de sua própria empresa, a Verum Eventos, que realiza o Circuito Expocorte e outros eventos do setor. Antes do Agronegócio, atuou por 15 anos na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, dentre os quais 13 como assessora parlamentar e dois no cerimonial da Presidência da Casa.

“Em um mundo multidimensional, cada vez mais complexo e dinâmico, são necessárias novas habilidades para gerenciar pessoas. A mulher, por natureza, consegue sentir prioridades, alinhar assuntos e atenuar conflitos. Somos mães, esposas, donas de casa e gestoras financeiras das múltiplas despesas da nossa ‘empresa familiar’ que é o lar, onde tudo cresce e muda o tempo todo. Essas características de adaptação contínua, acrescentadas à habilidade de equilibrar situações imprevistas, predestinam a mulher para gerir fazendas e outros empreendimentos num ambiente cada vez mais colaborativo. Quem é responsável por prover o lar certamente está preparada para a nobre tarefa de produzir alimento para o mundo através do agronegócio.”

Rafaela Castilho, DC Confinamento

Nasceu em Novo Horizonte. 26 anos. Graduada em Administração de Empresas. Pecuária exige profissionalismo total, como qualquer outra atividade. Gerente financeira da DC Confinamento que deve alojar 35 mil animais neste ano. Parceira do Minerva e Marfrig e exporta para a União Europeia. Quando iniciou o trabalho na fazenda do pai, o negócio havia crescido bem, mas as margens estavam muito reduzidas.

Consolata Piastrella, Piastrella Rastreabilidade

Especializada em rastreabilidade, formada em Zootecnia pela Universidade Federal de Tocantins, já desenvolveu processos de rastreabilidade em mais de 25 fazendas e acaba de montar sua empresa. Desde sua formação convive com o universo masculino e somente com algumas poucas mulheres.

“Até pouco tempo eu não havia sentido na pele o que é ser ‘mulher’ nesse nosso meio. Sempre sou muito bem recebida por todos e executei todos os meus trabalhos nas propriedades com muito respeito e tranquilidade. Mas, recentemente, ocorreu uma solicitação que caracteriza bem essa adversidade. Um produtor pediu que minhas visitas à sua propriedade ocorressem somente quando ele e sua esposa não estivessem na fazenda. E, se caso a visita à propriedade coincidisse com a data de estarem presentes, que eu enviasse um técnico (homem) da empresa. Senti-me um pouco constrangida sim, mas entendi que a razão disso seria que a esposa poderia estar com ciúmes. Como podemos observar essa barreira não é só do homem, é também da mulher. Ela, e todos nós, que ainda não conhecem esse universo, temos nossos medos. O fator ‘mulher’ no Agronegócio ainda é um processo que está em fase de ‘adaptação’. Por isso, como toda “inovação”, tem vantagens, e tem também muitas dificuldades. Estamos ‘desbravando’ o campo, desbravando um ambiente quase que inteiramente masculino, o que não nos impede de continuar sermos femininas. Por mais que a mulher trabalhe no campo, eu acredito que ela deve sim manter suas caraterísticas femininas. Não sou a favor de que a mulher tenha que se masculinizar para que seja aceita no nosso meio. A mulher tem que ser mulher com todas as letras maiúsculas. O que deve sim ser considerado não só por ela, mas por todos no trabalho, nas propriedades, no campo em geral, é sim o respeito mútuo entre todos os envolvidos. A mulher no campo, como em outros setores já é uma realidade, e sendo assim, todos nós temos que nos adaptar à essa nova cultura.”

Patrícia Pimpão de Paula, Fazenda Santa Bárbara

Proprietária da Fazenda Santa Bárbara, em Cocalzinho (Goiás), a 74 quilômetros de Brasília. Teve como desafio tornar lucrativa a fazenda herdada do pai. Graduada em Administração de empresas, assumiu a fazenda em maio de 2009, sem conhecer a propriedade e a atividade. Parentes e amigos não acreditavam e aconselhavam vender a propriedade.

“Foi um choque de realidade. A fazenda era improdutiva, eu visitei poucas vezes e não gostava, não conseguia nem dormir lá. Fugi da choradeira e procurei uma consultoria. Até porque não entendo a história de que ‘empresa quase empatar, tá bom’. Era uma boa oportunidade. Fomos atrás de capacitação, levantamos dados e possibilidades, investimos em aperfeiçoamento da reprodução. Meu pai ensinou que as pessoas sonhavam em trabalhar na fazenda. Que é importante envolvermos os colaboradores para eles sentirem que fazem parte de algo maior. Ao final de quatro anos, a mesma equipe estava produzindo dez vezes mais. É importante sabermos para onde vamos, em que direção. E o porquê. Há muita diferença entre pico de empolgação e motivação. Temos que saber o que faz a gente feliz, faz o nosso tempo parar.”

Flavia Roppa, Publisher e Diretora da Safeway

Empreendedora, especialista em Marketing, Comunicação Visual e Conteúdo Informativo em Agrobusiness, é Diretora de Comunicação e Marketing da empresa Safeway Soluções em Palestras e Eventos, sendo responsável pelo conteúdo das revistas e dos portais Aveworld, Porkworld, e Beefworld.

“Não vejo diferença de capacidade entre homens e mulheres. O que existe é que o ser humano é diferente um do outro, e consegue resultados distintos, de acordo com suas competências, independentemente do sexo. Reconheço que as mulheres ainda sofrem discriminação em muitos países, mas também houve, e há, avanços inegáveis. Nós mulheres temos que prosseguir nesta caminhada. Em Agronegócio, nossa missão é investir em conhecimento e ciência ininterruptamente. Ajudar os empresários rurais, as empresas e os profissionais do segmento a serem cada vez mais eficientes, produtivos e lucrativos. Contribuindo para a melhoria de vida das empresas e das pessoas.”

Maria Ruth Villela de Andrade, Fazenda Querência, Fazenda Valle das Fadas e Cabanha Victoria

Energia é com Ruth Vilela de Andrade. Graduada em Comunicação Social (Habilitação Jornalismo), Artes Plásticas e pós graduada em Psicologia, durante trinta anos, viajou o mundo em exposições. Depois da morte do pai, mergulhou intensamente no trabalho do campo. Cria gado Wagyu e foi responsável pela primeira experiência de cruzamento das raças Wagyu e Hereford, que deu origem à carne Heregyu, lançada oficialmente durante a Expointer de 2014. Também cria cavalos Mangalarga e ovelhas leiteiras EastFriesian, uma raça alemã com 600 anos de seleção genética na produção de leite. Casada, não tem filhos e ainda integra a Liga das Mulheres Eleitoras do Brasil.

“Só tive bons momentos na vida, adoro o campo e sempre me sai muito bem neste mundo fortemente masculino. Aliás, tenho bem mais amigos homens do que mulheres. Não vejo diferenças de conteúdo entre os dois sexos. Penso que as mulheres devem conquistar seu espaço no mundo, como eu fiz. Como mulher, isto é, como todo ser humano deve conquistar, independentemente do gênero. O segredo é se organizar para dividir o tempo e conseguir sempre fazer tudo com muita dedicação, porque acima de tudo estamos sempre fazendo com amor.”

Mônika Bergamaschi, Agrônoma

Mestre em Engenharia de Produção Agroindustrial, graduada em Engenharia Agronômica, foi a primeira mulher a ocupar a pasta da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, na administração Geraldo Alckmin.

“A sensibilidade, o instinto de proteção e o capricho, peculiaridades da identidade e alma feminina, talvez possam ser grandes diferenciais do nosso segmento. A habilidade para lidar em ambientes historicamente formados por homens deve-se ao fato de eu ter estudado em colégio de padres. A maioria de meninos era esmagadora. Até tinha um colégio de freiras na cidade, mas meu pai temia que eu crescesse meio ‘fresquinha’. Queria que eu já vivesse numa realidade que iria defrontar no resto da minha vida. E a agricultura tornou-se minha vida. É o que gosto de fazer. É o que quero continuar fazendo.”

Beef World | Por Ulisses Riba