Sintonia fina na gestão



Por Maristela Franco

Percebe-se facilmente a sintonia entre pai e filha – pelo tratamento carinhoso, pelo discurso afinado, pelo orgulho com que relatam suas histórias entrelaçadas e constroem uma visão comum de futuro. Diogo Castilho (55 anos) e Rafaela Morgarbel Castilho (26) administram o DC Confinamento, localizado na Fazenda Tabaju, no município de Novo Horizonte, 410 km a oeste da capital paulista, e, justamente em função dessa sintonia, conseguiram dois grandes feitos: aumentar em oito vezes a lucratividade da empresa no curto período de dois anos e, ao mesmo tempo, fazer uma sucessão familiar tranquila. 

Os dois são muito diferentes, mas se completam: Diogo tem espírito inquieto, impulsivo, gosta de arriscar-se no mercado financeiro; Rafaela é prudente, meticulosa e analítica. Gerencia a empresa na “ponta do lápis”, ou melhor, no “clique do mouse”. Quando recebeu a proposta de trabalho de Diogo, em 2011, estava iniciando uma carreira promissora no Grupo Ícone (companhia paulista que gerencia fundos de investimentos) e hesitou muito antes de aceitar. O coração, porém, falou mais alto – ela é filha única, órfã de mãe e queria ficar mais perto do pai.

Também pesou na balança a vontade de alinhar o negócio da família às práticas modernas de gestão. Formada em administração de empresas pelo Insper, Instituto de Ensino e Pesquisa (antigo Ibemec SP), Rafaela estudou detalhadamente as demonstrações financeiras do confinamento para analisar resultados e identificar pontos críticos. Somente depois disso, propôs mudanças, contando com o apoio de Diogo, que começara o negócio em 2005 com apenas 1.032 bovinos e decidira ampliá-lo, em 2011, elevando o número de cabeças confinadas de 4.598 para 8.711.

Naquele momento, precisava de uma profissional como Rafaela para crescer com segurança. “Em 2012, terminamos 17.584 animais, 101,8% a mais do que no ano anterior. Em 2013, já pulamos para 26.253 cabeças, um incremento de 49,3%. Depois, o confinamento deu uma estabilizada, mais por falta de boi magro do que por vontade nossa”, informa Diogo Castilho. Ele apresentou os resultados obtidos em parceria com a filha durante a Interconf (Conferência Internacional de Confinadores), em setembro do ano passado, sem conseguir disfarçar sua emoção, que contagiou a plateia.

Após reformular todo o sistema administrativo da empresa, a dupla conseguiu elevar sua margem Ebtida (sigla em inglês para lucro antes da dedução de juros, impostos, depreciação e amortização), que estava no vermelho (- 2,68%,  em 2012) e fazê-la subir para 6,62%, em 2014, um resultado mais do que satisfatório.

Peso do boi magro 

O Ebtida é um indicador de desempenho muito usado por grandes companhias urbanas, principalmente as de capital aberto (com ações em Bolsa), mas não costuma ser apurado em projetos pecuários. Rafaela decidiu adotá-lo para conhecer a real capacidade de geração de caixa do DC Confinamento e fazer comparações com outras atividades que adotam o mesmo conceito. “Para sobreviver, precisamos apresentar resultados semelhantes aos de fontes de remuneração de capital mais atrativas,  disponíveis no mercado, inclusive porque o confinamento demanda investimentos pesados e enfrenta riscos cada vez maiores”, diz Rafaela, que, neste ano, assumiu o cargo de CEO (Chief Executive Officer, diretora executiva) da empresa, com as bênçãos do pai. “Ela está preparada para esse desafio”, garante.

Diogo admite ter influenciado certas escolhas da filha, mas nunca lhe impôs nada. “Rafaela gosta de fazenda e de números”, diz. Para descobrir formas de melhorar a margem Ebtida do DC Confinamento, a jovem administradora fez uma raio X do negócio familiar, avaliando não apenas índices zootécnicos e estratégias de venda, mas principalmente matrizes de custo. “Constatei que a compra de bois magros havia consumido 79,27% de nossa receita bruta em 2012, um percentual muito alto, que comprometeu nosso resultado final naquele ano. Para reduzir essa despesa, decidimos abandonar o velho método de aquisição de animais pela ‘perna’ , ou seja, com base em meras observações visuais.  Passamos a pagar pelo peso auferido na balança do fornecedor e sobre o qual aplicamos um rendimento de 50%”, informa Rafaela.

A reportagem completa está na edição de agosto da Revista DBO. Assinantes também podem acessá-la na edição digital 

Fonte: Revista DBO 418